
Na aurora do homem, aquela tribo de aborígenes vivia em harmonia com a natureza das selvas e savanas africanas. A fauna respeitava-os como iguais partes de um todo, apesar da divergência de visões entre presas e predadores. A flora oferecia-lhes beleza e simplicidade. A água fornecia-lhes a energia necessária à caça; a terra abrigava-os da noite e da solidão. O céu era belo, uma imensidão azul que os protegia da fúria dos deuses antigos e comunicava-se através de um suave toque no horizonte distante, trazendo segurança e paz. Seus olhos extasiados se perdiam na vastidão celeste, enquanto seus pés se firmavam no cobiçado solo, firme e rígido em toda sua extensão e tranquilidade. Conheciam a liberdade e a verdadeira união, na incontestável gratidão por tudo que a natureza proporcionava-lhes. Depositavam uma ingênua, e ainda frágil, fé nestes elementos visíveis que asseguravam sua árdua sobrevivência: admiravam e respeitavam a vida em toda sua plenitude.
O vento uivava seco e uma fina camada de poeira depositava-se nos poros. O calor seco do verão não poupava nem mesmo a pele escura e já acostumada ao clima árido. Escorpiões, lagartos e homens lutavam em igualdade, movidos pelo mesmo espírito combatente: a fome. Em uma época nada próspera, o sol ardente da savana provocava uma escassez de alimentos que a tribo não estava acostumada a enfrentar. A luta pela sobrevivência acirrava-se e perdiam-se na memória os tempos em que eram apenas caçadores. Os conflitos por território deram lugar aos conflitos com o mundo selvagem; a caça diária e a busca por fontes de água tornavam-se cada vez mais desgastantes e improdutivas. Várias tribos migravam para o sul; a maioria sem esperança, muitas sem sucesso na desafiadora empreitada. Abandonados pelos deuses e pela natureza, lançavam-se em direção ao perigo.
Mais uma vez, a esfera flamejante ergueu-se no horizonte. A perigosa rotina já havia começado, com os batedores voltando de sua ronda. Avistou-se um bando desavisado e cada vez mais incomum por aquela área. Eram poucos, mas o suficiente para alimentar a tribo por aquele dia. Algumas dezenas de antílopes bebia nas margens apenas úmidas do riacho que outrora matara incansavelmente a sede da tribo. Os arcos e as lanças foram preparados. Um negro alto e forte era o líder dos famintos caçadores.
Furtivamente aproximaram-se. Os animais estavam abatidos pela seca, mas à qualquer sinal de perigo poderiam facilmente escapar de predadores com portes físicos tão inaptos a uma perseguição. Porém, a capacidade de pensar, as primitivas armas que podiam fabricar e o fator surpresa os tornavam os mais eficazes caçadores. Cercaram o bando, ocultos por pequenos arbustos que resistiam bravamente à esfera flamejante que secava tudo, e esperaram pelo início do ataque.
O líder arremessou a primeira lança, que descreveu um movimento em arco na atmosfera seca e despencou sobre a primeira presa. O animal hesitou por uma ínfima fração de tempo, tempo suficiente para definir o seu destino. Em seguida, uma chuva de flechas e lanças derramou-se sobre o atordoado bando, que tentava se dispersar, enquanto vários caíam sob o ímpeto da fome humana.
O massacre foi rápido e a contagem revelou que haviam conseguido o suficiente para sobreviver durante pelo menos mais um dia de estiagem. Entregaram-se a uma euforia íntima e silenciosa e, enquanto coletavam a caça, não perceberam que a linha tênue que diferenciava os predadores das presas na disputada cadeia alimentar estava prestes a ser ignorada. Ao longe, um grupo de guepardos os observava e se aproximava lentamente, quase rastejando, escondidos pela pobre, mas traiçoeira, vegetação à margem do rio seco.
Talvez por instinto, talvez por seus sentidos ligeiramente aguçados, o líder dos tribais percebeu que algo estava errado. Percorreu com os olhos atentos a área ao redor de seu primitivo exército e reconheceu de imediato a armadilha em que caíra toda sua tribo. Cegos de fome, haviam despertado a fúria dos guepardos ali presentes ao roubarem-lhes as presas. Agora eles teriam de substituí-las. Entretanto, tinha a absoluta certeza de que os animais não aceitariam a devolução daqueles cadáveres que a tribo carregava. Não sem o prazer de tê-las caçado.
Infelizmente era tarde demais e o líder sabia disso. A natureza era generosa, mas também sabia ser cruel. Não se mostrara digno de continuar servindo-a. Ele cometera um erro, um erro que devia ser punido com a morte. Mas, e seus homens? Será que eles mereciam também tal destino? E o restante da tribo, morreria de fome? Deveriam todos sofrer pelo seu erro?
Decidiu que não. Por um momento, fechou os olhos. Largou no solo o animal morto que tentava erguer e suspirou. Estava pronto para enfrentar o seu destino e o faria. Mas sabia que não iria apenas lutar contra animais famintos, e sim contra uma natureza ávida por culpados e implacável. Na sua língua primitiva, emitiu um alerta sonoro para todos os outros. Os animais saíram de seus esconderijos, descobertos e satisfeitos pela vantagem que conseguiram, sem se intimidar com o fato de serem menos numerosos.
Os aborígenes finalmente perceberam que haviam sido transformados em presas. Os felinos avançaram sobre eles, utilizando-se da vantagem com que, ironicamente, a mesma estratégia furtiva que havia desgraçado os antílopes presenteara-lhes. Sabendo que seriam todos mortos se tentassem correr desesperadamente, o líder agarrou a lança para lutar e tentou coordenar a fuga, sem êxito. Presenciou a queda de vários, amigos e membros da tribo, para a fúria daquelas selvagens e mortais mandíbulas.
Num primeiro instante, os guepardos mais adiantados passaram velozmente por ele, perseguindo aqueles que o medo já engolia. O medo, a raiva, a fome, tudo abriu espaço para o instinto e o corajoso líder parou ali, envolto por uma nuvem de poeira que se levantava do solo árido, armado de sua vontade de existir. Já não se importava mais com seus aliados; seus objetivos mudaram inconscientemente. Esquecera-se que errara; não sabia mais se a natureza era generosa ou cruel; esquecera-se da própria natureza. A única coisa que importava era manter-se vivo.
O primeiro dos animais atacou-o pela frente. As garras rasgaram o antebraço do homem, mas a lança fizera maior estrago no peito do animal, que caiu no solo, sem conseguir se levantar. Antes de poder recuperar sua arma, um segundo guepardo avançou e cravou suas garras em seu abdome. O tempo parou.
Tudo que sentira no calor desta última batalha voltou em uma mórbida retrospectiva. Lágrimas rolaram de seus olhos quando percebeu que havia desistido e esquecido dos outros. Esquecera-se de seu objetivo. Esquecera-se da primitiva e simples reflexão que levara-o à busca de um objetivo. Esquecera-se do seu erro. Esquecera-se da natureza e esquecera-se de sua tribo. Esquecera-se de seus antigos inimigos; e dos atuais também. Esquecera-se de quem era, e esquecera-se do que estava fazendo. O tempo voltou a caminhar.
Em desespero, sua mão tateou a parte detrás de sua tanga e achou a machete que procurava. Ao ser derrubado pelo guepardo, acertou o topo da cabeça do animal com a machete, afundando seu crânio. Já ao nível do solo, teve a certeza de que a luta estava perdida. Mas não se importava mais. Esquecera-se da luta. Esquecera-se pelo que lutava. Esquecera-se por que matava.
Dois dos animais pararam à sua frente claramente intimidados pelo homem. O homem gritou: de raiva, de dor, de medo; por vingança. Vingança: um sentimento inédito que o fez sentir-se bem, apesar de tudo. Esboçou um sorriso e tentou se levantar. Queria sangue, queria matar, queria se vingar... De joelhos, gritou novamente, com a machete erguida, e golpeou mais uma vez a cabeça do animal já caído. Os dois animais que o observavam defensivamente recuaram. Exausto, e com algumas vísceras à mostra, o forte guerreiro desabou no solo árido. Um outro guepardo já se aproximava, com os olhos vivos fixos em sua garganta.
Não soube por que estava morrendo pela primeira vez; e se questionou pela primeira vez se haveria algum sentido para a morte ou para a vida. Entretanto descobriu apenas que tudo que havia sentido, feito, lembrado ou esquecido nos seus últimos instantes seria o suficiente para tirar todo o sentido que a vida poderia ter. Chorou por ter percebido aquilo que tinha sido despertado nele. Chorou, não por ele, nem por sua tribo, mas sim pelas tribos que futuramente povoariam aquele ambiente inóspito. Chorou pelas tribos que acreditariam na natureza ou em deuses daquele ambiente inóspito. Chorou pelas tribos que agiriam como ele por causa da natureza e destes deuses ingratos. E chorou pelas tribos que agiriam assim por motivo nenhum.